Este Blog foi escrito para o Público LGBT de todas as idades que estão a pensar em assumir-se. Nós sabemos que tomar a decisão de se assumir pode ser assustadora e desgastante. É por estas razões e devido ao nosso trabalho na área de homossexuais que fizemos este Blog. Acreditamos que informação útil e as experiências de outras pessoas em assumirem-se podem preparar-te para algumas das consequências que podem resultar de te assumires perante a família e amigos. Blog que reúne as principais notícias sobre o público Gls Glbt Lgbt (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Tem por objetivo manter tal comunidade informada, para que usufruam de seus direitos, comemorem suas conquistas e lutem pela diminuição do preconceito. Deixe seu recado, mande suas fotos e videos poste no nosso blog Faça parte você também Participem deste blog, Mail sociedadelgbt@hotmail.com

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

"Meu pai é gay" - Histórias de quem vive essa realidade

Preconceito pode ser aprendido em casa - e essa lição elas nunca tiveram. Garotas de famílias assumidamente homossexuais contam como é conviver com papai e papai (ou mamãe e mamãe)

 Durante toda a infância, a americana Abigail Garner sentia o coração acelerar toda vez que alguém mencionava a palavra "bicha" na sala de aula. De uma primeira geração de crianças criadas em famílias alternativas assumidas, ela cresceu mostrando o boletim escolar e negociando o horário de voltar para casa com uma mãe e dois pais - seu pai biológico decidiu viver com outro homem quando ela tinha 5 anos. Hoje, aos 33, é uma das mais conhecidas defensoras da causa gay no país, apesar de ser heterossexual. Desde 1999 escreve textos e dá palestras que ajudam filhos de homossexuais americanos - segundo estimativas, pelo menos oito milhões de crianças e adolescentes. Seu blog e seu livro, Families like Mine: Children of Gay Parents Tell It like It Is (numa tradução livre, Famílias como a Minha: Filhos de Pais Gays Contam como É), são referências no assunto.

Nos Estados Unidos, é comum que famílias como a dela assumam publicamente sua condição. Por lá, já existem até revistas voltadas para gays com filhos. A que ficou mais conhecida é a And Baby, lançada em 2001. Chegou a ter tiragem de cem mil cópias e fez sucesso com dicas para, por exemplo, papai e papai se saírem bem ao acompanharem a filha na compra de bonecas. O Brasil tem cerca de seis milhões de homossexuais e sedia a segunda maior Parada do Orgulho Gay do planeta. Mas só agora começa a lidar abertamente com o tema. "As famílias homoparentais são sempre existiram, mas eram invisíveis por causa do preconceito", afirma o sociólogo Alípio Sousa Filho, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e editor da Bagoas, publicação semestral de estudos sobre homossexualidade. "Dos anos 80 para cá, há avanços na aceitação da diversidade e eles estão ganhando mais visibilidade."

Filhos de gays não precisam colecionar, necessariamente, relatos traumáticos como os de Abigail. Filha adotiva do apresentador Leão Lobo - gay assumidíssimo -, Ana Beatriz Mota Lobo, 16 anos (foto acima), garante que raramente sofreu preconceito por causa do pai. "Meu namorado, por exemplo, se espantou mais por saber que o sogro era o cara das fofocas da TV do que com a opção sexual dele", diverte-se ela. Ana fala de sua criação com uma normalidade absoluta e não tem grandes dramas para contar. O problema começa da porta para fora. Mesmo completamente amparada, ela vive em uma família sem os mesmos direitos que as outras. Se o seu pai quiser se casar com o namorado, por exemplo, não pode. Já se vão doze anos desde a entrada, no Congresso Nacional, da proposta de legalização da parceria civil entre pessoas do mesmo sexo. E o projeto nunca foi votado. Mesmo sem amparo legal, as famílias formadas por casais gays vêm conseguindo vitórias na Justiça. Ao divulgar em 2002 a resposta ao pedido de custódia do filho biológico de Cássia Eller, feito pela viúva da cantora, o juiz que cuidou do caso escreveu: "A questão da homossexualidade não tem importância. O essencial foi assegurar o interesse pessoal de Chicão". Pela decisão, o garoto, hoje com 15 anos, permaneceu com Maria Eugênia Vieira Martins, companheira de Cássia nos últimos quinze anos de sua vida. A decisão abriu caminhos para casos semelhantes.

 

Descobri que meu pai é gay

“Eu confesso que descobri a algum tempo que meu pai é gay.
Atualmente ja tenho mais sangue frio pra desabafar a respeito disso. E sim, é certeza mesmo..

Minha família, apesar disso, vive completamente em paz. Minha mãe é feliz e meu pai sempre a trata com muito carinho, mas ja faz mais de dois anos que eu sei deles não terem mais relação sexual alguma (de acordo com minhas contas isso bate com dados que indicavam alguma coisa relacionada a homossexualismo).
No início foi um choque sim, chorei e fiquei bastante deprimida...era pior ainda quando via o rosto do meu pai, que sempre também é tão carinhoso comigo.
Isso é difícil demais, eu sei que ele tem um amante e ainda por cima entra em contato com outros rapazes. O que posso fazer? Tenho medo de estragar nossa família e meu Deus, amo muito os dois, não tenho preconceitos contra gays...mas ainda é difícil engolir por ser meu pai.

Penso em conversar com ele mas ao mesmo tempo existem grandes chances de arruinar minha família depois disso, e eu não quero colocar isso a perder.

...”

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

homens de batom

Ficou no passado o tempo em que vestido, salto alto e maquiagem eram acessórios exclusivos do público feminino. Os crossdressers, homens que vestem roupas do sexo oposto por satisfação pessoal, também não abrem mão das bijuterias e das longas perucas. Os CDs, como os adeptos do 'hobby' são conhecidos, são heterossexuais que possuem o fetiche de se transformar em mulher.
O termo crossdresser (vestir-se ao contrário, na tradução literal) foi importado para o Brasil em 1997, mesmo ano de criação do BCC (Brasilian Crossdresser Club), grupo cujo objetivo é reunir e dar suporte — principalmente psicológico — aos praticantes. De acordo com a presidente Kelly Neta (pseudônimo, foto), 51 anos, os CDs são homens que desejam uma identidade feminina, não significando que haja atração por pessoas do mesmo sexo. "Fazemos isso por puro fetiche, não é nada relacionado à opção sexual. No meu caso, sou hétero e muito bem casado. Porém, podem existir CDs que são homossexuais, mas isso não é regra", afirma.
O BCC possui atualmente 400 filiados, espalhados por 19 Estados brasileiros. Segundo Kelly Neta, o crossdressing é muito mais praticado do que se imagina, mas a maioria esconde o 'hobby' por conta do preconceito. "Muitos confundem a prática do crossdressing com os travestis. O que nos difere é a questão da comercialização do sexo e as alterações no corpo. Os CDs não têm nenhuma conotação sexual e não fazem modificações físicas permanentes, como silicones, uma vez que mantemos a identidade masculina", explica.
Apesar do cuidado que muitos CDs têm em preservar a identidade, alguns se produzem com peças do guarda-roupa feminino e saem às ruas sem intimidação. "Vamos a bares, restaurantes, shoppings e à praia, de biquíni e tudo mais, sempre sem invadir o espaço dos outros", explica Kelly. Para ela, mesmo com a caracterização feminina, o intuito não é se passar por mulher. "Nós temos a consciência de que não somos damas. Por isso nos vestimos apenas por entretenimento". Os filiados ao BCC têm média de idade entre 45 e 50 anos e pertencem a diversas camadas sociais. "Têm até muita gente importante que não pode revelar a identidade por medo do preconceito e das conseqüências no meio em que vive", diz Kelly. É o caso do CD Nádia (pseudômino), 25 anos, morador de Mauá. "Todos acham que um homem que gosta de usar roupas femininas é homossexual. Esse é o meu maior medo, pois as pessoas não aceitam e confundem o fetiche com a opção sexual simplesmente por não conhecer o assunto", afirma.
No caso de Nádia, o interesse por saias e maquiagens surgiu na infância. "Eu vestia roupas da minha mãe e da minha irmã. Fazia tudo escondido. Cresci achando que era um bicho estranho, por isso tinha medo de contar para alguém".
De acordo com o BCC, Nádia é considerada um crossdresser de armário, pois não tem coragem de sair em público como mulher. Outra dificuldade para ela é assumir a opção para a namorada. "Hoje tenho um relacionamento com uma garota há quatro meses. Ela ainda não sabe, pois não sei se aceitaria. Vou conhecê-la bem primeiro, depois decido se conto", diz.
Louise (pseudônimo, foto à direita), 42 anos, de Porto Alegre (RS), também compartilha a opinião de que a aceitação por parte do parceiro é um dos principais desafios de um crossdresser. "No momento estou solteira. Só pretendo iniciar um novo relacionamento com alguém que saiba e goste de mim como CD", afirma. Louise também tem receio de ser reconhecida como CD, mas arrisca algumas saídas. "Aqui em Porto Alegre, mesmo nos locais GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis), existem poucas crossdressers e o pessoal ainda estranha nossa presença. Eu saio mais quando viajo para cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, pois lá existe uma diversidade maior de opções e não tenho receio de encontrar algum conhecido", explica.
Suporte emocional - De acordo com a relações públicas do BCC, Patrícia Din (pseudônimo), 53 anos, o preconceito é a barreira que impede que os CDs assumam a posição perante a sociedade. Isso gera um conflito emocional e muitas vezes o praticante precisa de ajuda. "No clube, temos uma equipe de profissionais, inclusive no ramo psicológico, que vai ajudar o CD a se aceitar e a encarar a opção com naturalidade", explica. Segundo Patrícia, o apoio da família também é fundamental. "A minha mãe sabe que sou crossdresser e aceita numa boa. Ela até já fez um vestido para mim (risos)", revela.
Mas a maioria dos CDs vive uma realidade bem diferente de Patrícia, já que nem todas as famílias conseguem aceitar o fetiche como um 'hobby' comum. Porém, existem mulheres que aprendem a lidar com a opção do parceiro. Elas são as chamadas S/Os (Supportive Opposite) — pessoas do sexo oposto que apóiam e dão suporte emocional ao CD. Nesse sentido, Kelly Neta é uma privilegiada. Sua esposa, Maria Luiza, 43 anos, acompanha o marido em todos os momentos. "Ajudo a Kelly a comprar roupas, maquiagens e tudo mais o que precisar. Encaro tudo numa boa, já que o fetiche é bacana", revela.
Apesar do clima descontraído de Maria Luiza, ela revela que no início a aceitação não foi tão fácil assim. "Tudo começou como uma palhaçada, até que chegou o momento em que ele falou sério comigo e explicou que era um desejo incontrolável. Eu não sabia o que pensar e demorou um tempo até eu digerir a idéia de que meu marido gostava de se vestir de mulher", conta.

Homem que sente prazer em se vestir de mulher

Homem que sente prazer em vestir de mulher

Entre as fantasias do universo masculino, talvez o mais estranho aos olhos da mulher é quando o parceiro quer ser como... ela. Mas o fetiche existe e, muitas vezes, não se trata de desvio na orientação sexual. Segundo a terapeuta sexual Sylvia Maria Marzano, o que eles querem é colocar o lado feminino para fora, com o uso de lingerie ou roupas femininas. Ou ainda pode ser que façam isso apenas por curiosidade ou pelo fetiche mesmo.

O homem que tem esses hábitos “femininos” não é necessariamente gay. “O homossexual não quer ser mulher! Ele é um homem que gosta de outro homem. Precisamos não confundir com travesti, que veste roupas de mulheres mas têm prazer também no pênis. Um homem com orientação homoerótica só gosta de homens”, explica.
Sylvia é também diretora do Instituto Isexp, de São Paulo, e diz que esse desejo não deve ser necessariamente rotulado como desvio. “Para sabermos o que ocorre com cada homem que se veste de mulher precisaremos saber das circunstâncias em que isso ocorre”, explica. Segundo ela, o “travestismo” é um desvio, assim como o “cross dresser”, e nem sempre quer dizer homossexualidade. “Há uma grande discussão a esse respeito e ainda não temos uma certeza”.
Para ela, se o casal não sofre com a atitude, se ela faz parte do processo de erotização do casal, não há necessidade de procurarem ajuda profissional. “Agora, se esse comportamento estiver fazendo com que a parceria não esteja equilibrada, com um ou os dois sentindo-se culpados ou com mal-estar, é necessário que procurem ajuda, que poderá ser médico ou psicólogo”. A coisa pode virar doença se avançar para uma parafilia, ou seja, quando a pessoa que só chega ao orgasmo após prazer intenso desencadeado sempre por uma situação (seguido de mal estar).
A dica de Sylvia é que se o homem se sentir angustiado, deve procurar a terapia sexual. “Juntos, ele e terapeuta podem descobrir que conteúdos o fazem agir dessa maneira e o que faz com que ele sinta-se infeliz”.

Descobri que meu irmão é gay, o que fazer?

Pastor, acabo de descobrir que meu irmão é gay.Eu já desconfiava disso.Ele tem apenas 15 anos e nós moramos com nossos avós, eu sou a única convertida de minha casa.Eles fizeram um escândalo quando ele se assumiu. Eu sou estudante de psicologia e meus avós cobram uma atitude minha, para eu aconselha-lo, como se eu fosse resolver o problema. Eu fico muito triste por essa situação, primeiro por causa da questão da salvação dele e segundo por causa do preconceito que ele enfrenta e vai enfrentar.
Eu sinceramente não sei o que fazer.
O que pode ser feito agora é orar por ele e amá-lo profundamente. Quando ele abrir uma brecha, fale sobre Cristo pra ele. Saiba de uma coisa, seus avós cobram uma atitude sua porque eles estão tão atônitos quanto você. Não sabem exatamente o que fazer e estão pedindo tua ajuda, não os leve a mal. Quanto a sua tristeza, não é pra menos, é um impacto grande descobrir algo do tipo. Ame seu irmão, mas isso não quer dizer de forma alguma que você concorde com a orientação sexual dele. Se ele te pedir opinião, fale com sinceridade, porém sem ofendê-lo.

Casal de pastores gays é o primeiro do Rio a registrar a união estável em cartório após decisão do STF

Os pastores Fábio Inácio e Marcos Gladstone oficializaram a união no cartório
Os pastores evangélicos Marcos Gladstone e Fábio Inácio, fundadores da Igreja Cristã Contemporânea, foram o primeiro casal gay no Rio a registrar a união estável em cartório, após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Os dois oficializaram a união, nesta quinta-feira, no cartório do 7º Ofício de Notas, no Centro. A assinatura do documento foi acompanhada por alguns fiéis da igreja.

- Hoje eu me sinto orgulhoso de ser brasileiro e de saber que o meu afeto e o meu amor são reconhecidos pelas nossas leis - afirmou Marcos.
Os pastores estão juntos há cinco anos. Em 2009, eles realizaram uma cerimônia religiosa de casamento. Há dois meses, o casal iniciou o processo de adoção de duas crianças. Apesar da conquista com a decisão do STF, Fábio garante que a luta pelos direitos dos gays vai continuar.

- Depois de hoje, teremos um vínculo muito maior. O próximo passo será conseguir o registro civil.

A tabeliã Edyanne Frota, do 7º Ofício de Notas, explica que a união estável faz com que o casal gay adquira um novo status.

- Agora eles serão vistos como uma entidade familiar. Mas é importante frisar que a lei ainda não regulamente a união civil. No registro, eles continuam solteiros.




 

Pastores gays dizem querer servir de exemplo após se casarem em Belo Horizonte

O pastor evangélico Anderson Pereira, 34, cujo casamento com o também pastor Roberto Soares, 29, foi celebrado no último sábado (30), em Belo Horizonte (MG), disse esperar que a união dos dois sirva de exemplo a outros casais homossexuais.
A celebração ocorreu em cerimônia com a participação de 150 convidados na sede da Igreja Cristã Contemporânea Belo Horizonte, situada no bairro Santa Mônica, região de Venda Nova, na capital mineira.     Os dois, oriundos do Estado do Rio de Janeiro, moram juntos há dez anos e resolveram se casar no templo da congregação voltada para o público homossexual e na qual são pastores há dois anos.
“A gente tem visto o quanto tem de pessoas que estão vivendo situações de opressão, que estão sofrendo e até querendo dar fim a suas vidas porque perderam seus sonhos e a autoestima por culpa da negação. Eu fui uma dessas pessoas, caí em depressão por causa disso”, disse.

Outros casamentos marcados

Segundo ele, depois da celebração da união entre eles, mais cinco casamentos estão marcados para serem realizados no mesmo templo, em 2013. Ao todo, conforme Pereira, 110 pessoas participam dos cultos no local, realizados nas quartas-feiras e aos domingos.
“Eu sempre fui evangélico e participava de cultos tradicionais, que me fizeram acreditar que a minha opção sexual não era algo que vinha de Deus, e por eu não dar conta disso, eu me afastei por 16 anos. Eu queria ser evangélico, mas me fizeram acreditar que Deus não me aceitava do jeito que eu sou” afirmou.
Pereira disse ainda que sempre teve o desejo de se casar e formar uma família.
“Há cinco anos, quando comecei a frequentar os cultos da igreja contemporânea, eu comecei a resgatar esses sonhos meus”, citou. Referencial
O pastor encara a cerimônia realizada no último sábado, que Pereira afirma ter sido a primeira realizada entre pastores gays no Estado de Minas Gerais, como um referencial a quem deseja assumir publicamente a sua preferência sexual, mas tem receio de fazer isso.
“Além da afirmação do nosso amor, é para ser um referencial para outras pessoas que estão se acabando, entregando-se às drogas e se prostituindo. Através dessa decisão que tomamos, acreditamos que as pessoas vão entender que é possível ter um relacionamento homoafetivo monogâmico, com amor e duradouro”, salientou.
O pastor afirmou que eles pretendem adotar duas crianças.

Cerimônia

O pastor Anderson Pereira disse que a cerimônia foi planejada em todos os detalhes e contou com a participação de dois pastores da Igreja Cristã Contemporânea, vindos do Rio de Janeiro, onde fica a matriz, para celebrar o casamento.
“A cerimônia foi maravilhosa. Planejamos desde o bem-casado (doce) até as flores que iriam ser usadas.
Pereira declarou que ele e o parceiro vão passar a lua de mel em São Luís, no Maranhão.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A IDENTIDADE TRANSEXUAL

Nesses últimos dias tenho silenciado um pouco este blog...
Venho pensando, sentindo e observando minha postura na sociedade:
No dia a dia, na faculdade, na vida profissional e espiritual, tenho me reafirmado cada vez mais como homem. E a medida que me aproximo deste universo masculino no mundo real, não só na minha mente, percebo que a auto afirmação como homem, sendo um homem transexual, difere em alguns pontos da auto afirmação de um homem biológico. Eles tem preocupações que alguns de nós não tem, e vice versa. Nossa masculinidade é imposta de uma forma muito particular, ainda primária talvez, que vai desde o surgimento dos primeiros pêlos faciais, a voz grossa... readequar nossa aparência como um homem se torna quase uma fixação, eu penso nas sobrancelhas, nos cílios, nas mãos, nos pés, na textura da pele... acho que alguém vai olhar esses detalhes e dizer que sou diferente... às vezes me sinto como se fosse um criminoso se escondendo de alguém que reconhecesse sua foto nos “procurados”.
Quanto a sentir na pele o papel social de um homem e desempenhá-lo, não é um problema, é uma satisfação e realização. Porém venho desconstruindo e reconstruindo minha auto imagem masculina. Sim, porque antes, eu me sentia homem, meu corpo estava errado, mas isso não fazia de mim um homem diferente dos outros. Hoje, analisando e sentindo sem os anteriores preconceitos machistas que me atordoavam a mente, entendo de forma clara e bem resolvida, que por mais que eu seja um homem que pensa e vive como um, eu não sou exatamente como os outros homens biológicos. Existe algo que me difere, sinceramente sinto até que me torna especial, sim, eu sou um homem, mas eu sou um homem transexual!
Admitir essa realidade não é tarefa fácil, é preciso estar muito seguro de si. Pode parecer óbvio para quem vê de fora, mas os homens transexuais talvez saibam do que estou falando.
O problema é que me assumo como homem e me escondo como homem transexual, que é o que de fato sou. Bem... aí entram meus questionamentos. As pessoas na sociedade a qual pertencemos e precisamos conviver têm uma série de pré definições à respeito da transexualidade, e convenhamos, a grande maioria não é positivo. Penso então na minha parcela de culpa nisso, eu mesmo não consigo bater no peito e assumir que sou homem sim, mas um homem transexual e que nem por isso sou menos, sou promíscuo, sou doente mental e todas as outras coisas que se pode pensar sobre nós. Estou dividindo uma sala de aula com outros futuros psicólogos, e nenhum deles sabe a minha realidade como homem transexual. Não que eu ache que devo andar com uma faixa na cabeça indicando minha transexualidade, ou que ao conhecer alguém eu deva dizer: “ Olá, meu nome é fulano, sou transexual”.
Na verdade ainda nem tenho certeza de como devo agir, mas sinto que preciso impor respeito aos homens transexuais, mostrar que a nossa existência é palpável, que somos homens sem grandes limitações, podemos ser amigos, maridos, profissionais... é o nosso direito de SER. È a minha identidade como transexual. Enquanto me escondo, tenho medo e vergonha de ser quem sou, é como se eu fosse cúmplice da mentalidade geral , cúmplice do preconceito, da falta de informação...
Um dia desses fui palestrar sobre o universo dos transexuais para um grupo LGBT de surdos aqui em Recife, eram cerca de 50 surdos, entre eles gays, lésbicas, bissexuais e transexuais. Ao explicar para eles a diversidade dos reconhecimentos de gêneros senti um certo alívio, ali a grande maioria tinha conceitos errôneos sobre a transexualidade, senti que ficaram esclarecidos, e isso me gerou uma felicidade e sensação de dever cumprido. Mas ao terminar, senti que estava só começando.
Assumir minha identidade nos momentos certos, para as pessoas certas, talvez seja um grande passo para a reconstrução dos conceitos sobre os transexuais, o início da desmistificação, da imposição e do respeito.

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