O presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas,
Bissexuais e Transgêneros) de São Paulo, Roberto de Jesus, 39 anos,
acredita que 300 mil pessoas compareçam neste domingo à tarde na avenida
Paulista, para assistir a 6ª edição da manifestação de homossexuais. Em
entrevista exclusiva ao Diário, Beto de Jesus, como ele prefere ser
chamado, põe em dúvida o IBGE, que estima em 3 milhões o número de gays,
lésbicas e bissexuais, que haveria no país. “É muito pouco”, afirma.
Para ele, há pelo menos 17 milhões de brasileiros com opção
não-heterossexual.
Ex-seminarista, bem articulado e incansável, Beto de Jesus organiza a
Parada Gay desde 1997, quando reuniu cerca de 2 mil pessoas. Daquele ano
para cá, os números sempre aumentaram: 8 mil em 1998; 35 mil em 1999;
120 mil em 2000; e a mais bem sucedida de todas – a de 2001 – quando
compareceram 250 mil pessoas.
Beto de Jesus participou da entrega dos prêmios Cidadania e Respeito à
Diversidade, na última segunda-feira, no Centro Cultural São Paulo. Às
23h30, acompanhado por um grupo de colaboradores, o presidente da Parada
GLBT foi até o apartamento de um assessor. Bem acomodado em um sofá, e
acompanhado de pizzas e refrigerantes, o presidente da maior Parada Gay
da América Latina falou ao Diário sobre Aids, violência, cidadania e
principalmente do direito de ser diferente:
O Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – o IBGE – divulgou recentemente os números de
um levantamento, que afirma existirem no Brasil 3 milhões de
homossexuais. É muito ou pouco?
É pouco. Essas pesquisas são feitas com base na assertiva da pessoa. Em um país com um grau muito
grande
de discriminação, como o Brasil, muita gente prefere não se declarar
gay ou lésbica. Com base no Relatório do Instituto Alfred Kinsey (de
1948), que estima que 10% da população seja homossexual, haveria então,
no Brasil, cerca de 17 milhões de pessoas com orientação
não-heterossexual.
Qual é a origem da Parada Gay?
No dia 28 de junho de
1969, houve um grande confronto entre gays e policiais em Nova York, no
episódio que ficou conhecido como a Batalha de Stonewall. Havia esse
bar, que era um reduto gay, o Stonewall (no bairro de Greenwich
Village), que freqüentemente era ocupado pela polícia. Os gays
apanhavam, eram revistados, até que eles decidiram que isso tinha de
acabar. Naquela noite, quando houve nova batida (a segunda em uma mesma
semana), os gays reagiram e o jornal Coming Out decretou essa jornada
como a do Orgulho Gay. A partir daí, começaram a ser feitas passeatas.
Quando ocorreu no Brasil a primeira passeata de homossexuais?
Em 1995, ocorreu no Rio
de Janeiro a 17ª reunião da Ilga (International Lesbian Gay
Association). Havia mais de 60 países representados. Quando os trabalhos
terminaram, os participantes saíram em passeata pela avenida Atlântica.
Dois anos depois, aconteceu a 1ª Parada em São Paulo, com a
participação de 2 mil pessoas.
Qual era a reação das pessoas na rua?
Nunca houve reação
adversa. A cada ano temos mais participação de heterossexuais e sem
nenhum tipo de situação de violência, de conflito ou qualquer ocorrência
grave. A Parada é um tipo de fala. As pessoas falam com seus corpos,
com sua sexualidade. É como se elas estivessem dizendo: eu não estou
mais sozinha, há outras e muitas outras iguais a mim. É importante
sentir esse espírito de corpo. É algo positivo na luta pela cidadania.
Se há esse desejo de
integração, por que os jornais publicam muitos anúncios de gays que
pedem parceiros que não freqüentem o meio? São três solicitações
que se vê geralmente: fora do meio, que não seja gordo, nem efeminado.
Esses anúncios são minoritários, se comparados com a imensidão da
comunidade homossexual. A pessoa quer alguém fora do meio, alguém não
efeminado, para não se tornar visível. Nosso movimento caminha no
sentido contrário. Nós queremos nos tornar visíveis. Nós temos
auto-estima e isso nos garante contra nosso agressor. Sendo visível, é
possível denunciar o agressor.
Qual foi a importância do presidente Fernando Henrique Cardoso ter empunhado a bandeira GLBT?
Todo apoio é bem-vindo.
Eu vou fazer uma analogia: se você é um músico e apóia o movimento GLBT,
você compõe uma música; se é um escultor, faz uma escultura. Quando o
chefe do governo diz que é favorável, isso é ótimo, só que ele tem a
caneta na mão e precisa aprovar aquele projeto dos direitos civis, de
autoria da então deputada Marta Suplicy (PT), que está desde 1996 parado
no Congresso. Ele que chame sua bancada de sustentação e aprove logo a
matéria.
Qual é a importância desse projeto para a comunidade GLBT?
Esse projeto é
importantíssimo para os homossexuais, porque encerra uma questão de
juízo de valor. A legislação perante os heterossexuais é uma; e outra
para os homossexuais. Não queremos juízo de valor, mas de direito.
Quando me descontam do meu salário compulsoriamente INSS, IR e outros
impostos, ninguém me pergunta qual é a minha orientação sexual. Agora,
eu não posso colocar no plano de saúde o meu companheiro. Também não
posso comprar um apartamento com ele. É um problema para transferir a
pensão, herança. Se o projeto tivesse sido aprovado, não enfrentaríamos
mais todas essas situações.
Na semana passada, as notícias
sobre Aids eram boas. Houve 25% a menos de mortes de Aids, em 2001, em
relação a 2000. Qual é a avaliação que você faz sobre o avanço ou recuo
da doença?
A notícia boa é que na
população homossexual acima de 35 anos, – a minha geração que viu a cara
da doença – a Aids manteve-se estacionada. Isso mostra que as pessoas
estão se protegendo. A notícia má é que a doença tem atingido mais a
faixa dos 15 aos 23 anos, que é uma geração que não viu a cara da doença
e se acha segura, por causa dos coquetéis. Eu insisto, em todas as
entrevistas, que o melhor remédio contra a Aids continua sendo a
prevenção, usar camisinha nas relações sexuais. Hoje a Aids não é mais
uma doença de homossexuais, como chegou a ser classificada há 20 anos. É
um mal que atinge todo mundo e atualmente se espalha mais entre
mulheres heterossexuais.
Como seus pais reagiram, quando você assumiu a sua homossexualidade?
A princípio, houve uma
situação de estranhamento. Havia um muro com informações incorretas, que
nos distanciavam. Se você constrói um muro, não consegue enxergar as
pessoas do outro lado. Consegui quebrar esse muro com ações positivas,
com diálogo. Hoje minha família me apóia – meus pais, meus sobrinhos,
meus irmãos. Eles têm orgulho do que sou. E isso me faz muito feliz.