Este Blog foi escrito para o Público LGBT de todas as idades que estão a pensar em assumir-se. Nós sabemos que tomar a decisão de se assumir pode ser assustadora e desgastante. É por estas razões e devido ao nosso trabalho na área de homossexuais que fizemos este Blog. Acreditamos que informação útil e as experiências de outras pessoas em assumirem-se podem preparar-te para algumas das consequências que podem resultar de te assumires perante a família e amigos. Blog que reúne as principais notícias sobre o público Gls Glbt Lgbt (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Tem por objetivo manter tal comunidade informada, para que usufruam de seus direitos, comemorem suas conquistas e lutem pela diminuição do preconceito. Deixe seu recado, mande suas fotos e videos poste no nosso blog Faça parte você também Participem deste blog, Mail sociedadelgbt@hotmail.com

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Relacionamento gay: o que fazer para dar certo?

“Relacionamento gay. O que fazer para dar certo?”
A princípio, apesar de muita gente procurar o blog em busca de dicas para fazer relacionamentos darem certo, fico bastante feliz em saber que boa parte dos usuários estão em busca de algo mais sério. Na rua, o que a gente vê por aí, é muita falta de compromisso e uma banalização das relações já que a maioria prefere quantificar o número de pessoas que beijam durante a noite. Pessoalmente, a falta de comprometimento ou o individualismo me dá uma certa preguiça! :P
Já postei alguns conselhos sobre o assunto, mas vejo que vale a pena apresentar mais alguns pensamentos sobre o tema de “como fazer um relacionamento vingar”.
Relacionamento gay - Namoro gay
Dicas Top 15 para criar ou fortalecer um relacionamento gay:
01) Antes de tudo, reflita para quê você quer um namorado. O que representa um namoro para você? Ter alguém por ter ou construir uma história juntos? Se você quer alguém só por ter, talvez esse seja o motivo de não estar dando certo com relacionamento! Relacionamento a gente precisa cultivar.
02) Procurar potenciais namorados na balada nem sempre dá certo. Balada serve mais para curtir;
03) Se encontrou alguém interessante, busque fazer programas a dois, busque conhecer mais a pessoa antes de se encantar. Encantos que começam rápido terminam mais rápido ainda;
04) O casal precisa ter algum tipo de sitonia de gostos e valores. Mas quando digo isso, seu namorado não precisa gostar exatamente das mesmas coisas que você! O diferente pode ser legal e pode complementar. Se não complementar, aprenda a tolerar as diferenças;
05) Veja se a pessoa é bem resolvida. Se ela se aceita bem como gay, se tem tranquilidade com a própria sexualidade e não se incomoda de estar com você aonde quer que seja;
06) Se está namorando, saia um pouco do circuito GLS. Curta outros ambientes, viagens e lugares fora do meio;
07) Coloque limites nas amizades. Amizades podem influenciar sua relação para o bem ou para o mal. Lembre-se que o relacionamento é seu e o que acontece entre o casal é mais íntimo do que público. Muita exposição gera confusão;
08) Exercite concessões. Ninguém é igual a ninguém e as diferenças podem multiplicar a qualidade da relação;
09) Seja mais pró ativo! Escreva uma carta, dê flores, presenteie, leve para jantar, ao invés de esperar tudo isso da pessoa;
10) Repense seus valores quando o assunto é ser ativo ou ser passivo! Você é gay e pode aproveitar todos os prazeres. Libere-se dos limites sociais ou mentais;
11) Aprenda a controlar seu ciúme. O exercício da confiança pode garantir a qualidade de uma relação;
12) Inclua seu namorado nos grupos de amigos e na família, mas evite os amigos ciumentos que podem colocar fogo na lenha. Quando se está namorando, priorize o namorado. A amizade verdadeira se reencontra a qualquer hora;
13) Acima de tudo, confie em você, “confie no seu taco”. Cuide bem da sua vida e reserve um tempo bom para curtir seu namoro;
14) A intimidade da cama pode acontecer rápido, mas para conhecer alguém mais a fundo é importante uma disposição mútua, e leva tempo. Ninguém conhece o outro em 6 meses, mas pode rolar na cama em menos de uma semana (ou em menos de 5 horas). Fácil fazer sexo, não? Difícil é expor a intimidade!;
15) Saiba que relacionamentos passam por fases, por toda a vida. O sexo pode esfriar ou esquentar, mas o companheirismo, o respeito e a tranquilidade tendem a se estabelecer. Ou pelo menos, é para isso que você deve procurar um relacionamento!
Relacionamentos servem para nos tornarmos indivíduos melhores, convivendo com uma outra pessoa. Em outras palavras, relacionamentos servem pra gente descobrir o amor.

Meu marido é gay

Assisti o documentário “Meu marido é gay” na GNT. Basicamente, fala sobre maridos que depois de anos de casados e com uma vida estável assumiram-se gays para suas esposas e famílias. Coisa difícil de se fazer e necessita muita coragem. Coragem de dar uma virada de 180 na sua vida e na vida de outras pessoas. Mas vamos por parte.
Kenneth Cole Ad Pro Gay Marriage
Assumir-se gay é complicado para algumas pessoas porque a sociedade impõe que ser gay é ser errado, então quando um jovem se dá conta desses dois fatores pode entrar em crise por ser uma pessoa errada, um freak. Muitos não têm coragem de se assumir nem para elas mesmas porque elas se preocupam com o seu próprio julgamento, imagine não ter controle sobre o julgamento de outras pessoas.
Enfrentado este primeiro estágio de auto-conhecimento e auto-aceitação é hora de decidir se você quer que o mundo saiba ou prefere guardar segredo em sete chaves. E uma coisa que um dos maridos falou no documentário foi: “Meu parceiro tem um pessoa completamente diferente do que minha esposa tinha. Ele me tem por inteiro, o pacote todo. Ela tinha só parte de mim”. E é isso que eu acredito por isso que falo para meus amigos, os de verdade, é claro, porque eu me sinto mal sendo “falso” em alguns aspectos. E para minha sorte, todos aceitaram numa boa e não mudaram o jeito de me tratar. E mais legal ainda, foi que a pessoa que disse claramente que poderia ter problemas com a revelação tornou-se meu melhor amigo.
Bem, agora casar e manter sua sexualidade em segredo mesmo descobrindo depois do casamento é algo complicado. Alguns escondem por causa da vida estável que já têm e da responsabilidade com a família. Outros escondem porque não conseguem se aceitar, mas uma hora a bomba estoura. Ou você morre sufocado pelo seu segredo ou você machuca completamente a pessoa que está do seu lado por décadas. E sair do armário depois de um casamento heterossexual parece ser meio egoísta porque por um lado um fica aliviado por poder ser ele mesmo, mas por outro lado, acaba com a vida da outra pessoa. É diferente quando um casamento acaba por causa de crises constantes e brigas. Acabar um casamento que é feliz e sem problemas é uma bomba atômica. No documentário muitas mulheres ficavam se perguntando por que ela, como se fosse um castigo. Elas se sentiam fracassadas. É complicado para elas porque toda aquela felicidade que sentiam repentinamente cai na área da dúvida. Para algumas era de verdade e conseguiram ver isso e superar. Para outras, ainda estão na fase de aceitação e manutenção da auto-estima.
Eu acho condenável entrar num casamento heterossexual sabendo da sua orientação sexual, mas reconheço que nem todas as pessoas têm a coragem de se aceitar e acabam entrando numa vida de mentiras para elas mesmas que acaba envolvendo outras pessoas ao redor. E todos os atos têm conseqüências.
E quem é o culpado de tudo isso? O mais imediato é a sociedade porque desde que o homem se conhece como um membro da sociedade, ele aprende que deve crescer, estudar, arranjar um trabalho, encontrar uma garota, casar e gerar descendentes. Para aqueles que não são fortes o suficiente ou não tem escolha, como casamento arranjados, essa é a regra e todo sentimento fora disso deve ser reprimido. Mas é fácil culpar a sociedade do que tentar mudá-la. Se todos os gays enrustidos do mundo (e olha que são muitos) começassem a criar coragem para assumir e ter sua vida do jeito que eles querem, a sociedade poderia começar a mudar e a vida não seria tão complicada.

terça-feira, 3 de julho de 2012

4 mitos sobre filhos de pais gays

O gays lutaram e conquistaram direitos iguais no casamento. O próximo passo é pensar em família e filhos. Mas o que acontece com crianças que são criadas por gays? A resposta: algumas coisas - mas nenhuma daquelas que você iComeço de ano é sempre igual na escola de Theodora: cada aluno se apresenta e mostra as fotos da família. Pode ser que a menina da primeira carteira seja filha de um engenheiro e uma arquiteta e o pai do menino de cabelos vermelhos chefie a cozinha de um restaurante. Theodora, naturalmente, vai contar sobre a escola de cabeleireiros dos pais. Dos dois pais - Vasco Pedro da Gama e Júnior de Carvalho, juntos há quase 20 anos. Theodora não hesita em explicar para os colegas: não mora com a mãe e tem dois pais gays. Ela passou 4 anos num orfanato, até 2006, quando uma juíza de Catanduva, interior de São Paulo, autorizou a adoção. Nos próximos meses, a família vai crescer: o casal espera a guarda de uma nova menina, de apenas alguns meses de idade.

Na outra metade do mundo, a história com pais gays da americana Dawn Stefanowicz foi diferente. Por toda a vida, Dawn conviveu com a visita dos vários namorados do pai. Ele recebia homens em casa, embora ainda morasse com a mãe de Dawn- o casal já não se relacionava. Ela segurou as pontas em silêncio durante a infância, adolescência e início da fase adulta. Mas depois dos 30 se rebelou contra a situação. "A decisão do meu pai de não gostar mais de mulheres mudou minha vida. Os namorados dele sempre o afastaram, e ele colocava o trabalho e os namorados acima de mim", diz.

Dawn e Theodora fazem parte de um novo tipo de família. Somente nos EUA, segundo estimativa da Escola de Direito da Universidade da Califórnia, 1 milhão de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais criam atualmente cerca de 2 milhões de crianças. E cada vez mais casais gays optam por criar seus próprios filhos. Segundo o mesmo instituto, em 2009, 21.740 casais homossexuais adotaram crianças - quase o triplo do número de 2000. A estimativa é que cerca de 14 milhões de crianças, em todo o mundo, convivam com um dos pais gays. Por aqui, onde mais de 60 mil casais gays vivem numa união estável (reconhecida perante a lei apenas no ano passado), a história é mais recente. O caso de Theodora foi a primeira adoção por um casal gay. E isso não faz tanto tempo assim - só 6 anos.

É justamente por ser tão recente que o assunto gera dúvidas, preconceitos e medos. Quais as consequências na personalidade de uma criança se ela for criada por gays? A resposta dos estudos é bem clara: perto de zero. "As pesquisas mostram que a orientação sexual dos pais parece ter muito pouco a ver com com o desenvolvimento da criança ou com as habilidades de ser pai. Filhos de mães lésbicas ou pais gays se desenvolvem da mesma maneira que crianças de pais heterossexuais", explica Charlotte Patterson, professora de psiquiatria da Universidade da Virginia e uma das principais pesquisadoras sobre o tema há mais de 20 anos.

Como, então, explicar as queixas de Dawn e a vida tranquila de Theodora? "O desenvolvimento da criança não depende do tipo de família, mas do vínculo que esses pais e mães vão estabelecer entre eles e a criança. Afeto, carinho, regras: essas coisas são mais importantes para uma criança crescer saudável do que a orientação sexual dos pais", diz Mariana Farias, psicóloga e autora do livro Adoção por Homossexuais - A Família Homoparental Sob o Olhar da Psicologia Jurídica. Enquanto Theodora mantém uma relação próxima dos pais, com conversas abertas sobre sexualidade, Dawn não teve a mesma sorte. Para piorar, ela cresceu em um ambiente ríspido e promíscuo (o pai levava diferentes homens para casa e não lhe deu atenção durante os anos mais importantes de sua formação). Mesmo assim, sobram mitos em torno da criação de filhos por pais e mães gays. Veja aqui o que a ciência tem a dizer sobre eles.

Mito 1. "Os filhos serão gays!"


A lógica parece simples. Pais e mães gays só poderão ter filhos gays, afinal, eles vão crescer em um ambiente em que o padrão é o relacionamento homossexual, certo? Não necessariamente. (Se fosse assim, seria difícil, por exemplo, explicar como filhos gays podem nascer de casais héteros.) Um estudo da Universidade Cambridge comparou filhos de mães lésbicas com filhos de mães héteros e não encontrou nenhuma diferença significativa entre os dois grupos quanto à identificação como gays. Mas isso não quer dizer que não existam algumas diferenças. As famílias homoparentais vivem num ambiente mais aberto à diversidade - e, por consequência, muito mais tolerante caso algum filho queira sair do armário ou ter experiências homossexuais. "Se você cresce com dois pais do mesmo sexo e vê amor e carinho entre eles, você não vê nada de estranho nisso", conta Arlene Lev, professora da Universidade de Albany. Mas a influência para por aí. O National Longitudinal Lesbian Family Study é uma pesquisa que analisou 84 famílias com duas mães e as comparou a um grupo semelhante de héteros. Ainda entre as meninas de famílias gays, 15,4% já experimentaram sexo com outras garotas, contra 5% das outras. Já entre meninos, houve uma tendência contrária: 5,6% nos adolescentes criados por mães lésbicas tiveram experiências sexuais com parceiros do mesmo sexo - mas menos do que os que cresceram em famílias de héteros, que chegaram a 6,6%. Ou seja, não dá para afirmar que a orientação sexual dos pais tenha o poder de definir a dos filhos.


Mito 2. "Eles precisam da figura de um pai e de uma mãe"


Filhos de gays não são os únicos que crescem sem um dos pais. Durante a 2ª Guerra Mundial, estima-se que 183 mil crianças americanas perderam os pais. No Brasil, 17,4% das famílias são formadas por mulheres solteiras com filhos. Na verdade, os papéis masculino e feminino continuam presentes como referência mesmo que não seja nos pais. "É importante que a criança tenha contato com os dois sexos. Mas pode ser alguém significativo à criança, como uma avó. Ela vai escolher essa referência, mesmo que inconsciente-mente", explica Mariana Farias. Se há uma diferença, ela é positiva. "Crianças criadas por gays são menos influenciadas por brincadeiras estereotipadas como masculinas ou femininas", diz Arlene Lev. Uma pesquisa feita com 56 crianças de gays e 48 filhos de héteros apontou a maior probabilidade de meninas brincarem com armas ou caminhões. Brincam sem as amarras dos estereótipos e dos preconceitos.

Mito 3. "As crianças terão problemas psicológicos por causa do preconceito!"

Elas sofrerão preconceito. Mas não serão as únicas. No ambiente infantil, qualquer diferença - peso, altura, cor da pele - pode virar alvo de piadas. Não é certo, mas é comum. Uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas com quase 19 mil pessoas mostrou que 99,3% dos estudantes brasileiros têm algum tipo de preconceito. Entre as ações de bullying, a maioria atinge alunos negros e pobres. Em seguida vêm os preconceitos contra homossexuais. No caso dos filhos de casais gays analisados pelo National Longitudinal Lesbian Family Study, quase metade relatou discriminação por causa da sexualidade das mães. Por vezes, foram excluídos de atividades ou ridicularizados. Vinte e oito por cento dos relatos envolviam colegas de classe, 22% incluíam professores e outros 21% vinham dos próprios familiares. Felizmente, isso não é sentença para uma vida infeliz. Pesquisas que comparam filhos de gays com filhos de héteros mostram que os dois grupos registram níveis semelhantes de autoestima, de relações com a vida e com as perspectivas para o futuro. Da mesma forma, os índices de depressão entre pessoas criadas por gays e por héteros não é diferente.

Mito 4. "Essas crianças correm risco de sofrer abusos sexuais!"


Esse mito é resquício da época em que a homossexualidade era considerada um distúrbio. Desde o século 19 até o início da década de 1970, os gays eram vistos como pervertidos, portadores de uma anomalia mental transmitida geneticamente. Foi só em 1973 que a Associação de Psiquiatria Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. É pouquíssimo tempo para a história. O estigma de perversão, sustentado também por líderes religiosos, mantém a crença sobre o "perigo" que as crianças correm quando criadas por gays. Até hoje, as pesquisas ainda não encontraram nenhuma relação entre homossexualidade e abusos sexuais. Nenhum dos adolescentes do National Longitudinal Lesbian Family Study reportou abuso sexual ou físico. Outra pesquisa, realizada por três pediatras americanas, avaliou o caso de 269 crianças abusadas sexualmente. Apenas dois agressores eram homossexuais. A Associação de Psiquiatria Americana ainda esclarece: "Homens homossexuais não tendem a abusar mais sexualmente de crianças do que homens heterossexuais".

Dá para adotar no Brasil?


A lei de adoção brasileira deixa brechas para a adoção por gays sem fazer referência direta a esse tipo de família. Em 2009, quando houve mudanças na legislação, casais com união estável comprovada puderam entrar com pedido de adoção conjunta, sem o casamento civil. Em maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) garantiu o reconhecimento de união estável entre pessoas do mesmo sexo, fazendo valer também a eles os direitos previstos para casais héteros. Apesar das conquistas, uma pesquisa do Ibope revelou que 55% dos brasileiros são contra a união estável e a adoção de crianças por casais homossexuais.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A Transfobia Oculta nas Histórias de CDs Que Se Deram Mal

Por mais paradoxal que pareça, a maioria das pessoas transgêneras sentem medo, culpa e têm vergonha de serem transgêneras, como repudiam o contato com outras pessoas transgêneras.
Embora o aparente progresso na aceitação e no respeito à diversidade humana, a maior parte das pessoas transgêneras ainda permanecem trancadas nos seus armários, apavoradas com o “inferno de Dante” que aguarda quem ousa assumir publicamente essa condição. A questão é que, mesmo nesses tempos de pós-revolução feminista, com o homem cada vez mais confuso e perplexo com o esvaziamento dos seus papéis e privilégios pela mulher, o travestismo continua sendo uma das mais graves transgressões contra a milenar instituição da “masculinidade”. Em pleno século XXI, o ultraconservador “catecismo machista” continua tratando crossdressing (travestismo) como uma coisa intrinsecamente má, doentia e socialmente reprovável.
Educadas nos moldes de uma sociedade que ainda é essencialmente patriarcal e machista, até as próprias pessoas transgêneras tendem a enxergar o crossdressing (travestismo) como prática vexatória, ridícula e pecaminosa; algo inteiramente desaconselhável e fora-de-questão para “homens de bem”. Assim, é um conflito muito grande para qualquer pessoa transgênera tentar atender, de um lado, o desejo avassalador de se expressar como membro do gênero oposto ao seu e, de outro, corresponder ao modelo de homem (ou de mulher) que nos é imposto pela sociedade em função do seu sexo genital.
Diante do impasse, e sem meios de se impor como indivíduo diferente da maioria, a solução adotada pela maior parte das pessoas transgêneras é “permanecer no armário”, em total segurança – e sofrimento psíquico, claro. Os mais “ousados” encontram uma dose extraordinária de coragem para fazer incursões solitárias ao “reino do proibido”, tentando expressar sua transgeneridade através do crossdressing. Mas muitos quase enlouquecem para manter tudo debaixo do mais estrito controle e sigilo, temerosos das terríveis represálias que poderão sofrer caso venham a ser descobertos usando roupas, calçados e adereços socialmente atribuídos ao gênero feminino.
O folclore transgênero é repleto de “histórias exemplares” sobre crossdressers que tiveram suas vidas transformadas num “vale de lágrimas” depois que se abriram para suas esposas, namoradas, chefes e colegas de trabalho ou tiveram sua “compulsão de se travestir” acidentalmente descoberta ou revelada de maneira intempestiva.
Obviamente, a “moral” de tais histórias, em vez de contribuir para melhorar a combalida auto-estima dos crossdressers, apenas reforça o ideário machista onde crossdressing (travestismo) aparece como uma prática absolutamente abominável sob todos os pontos de vista.
Sob o inocente pretexto de alertar os “neófitos” e ”desavisados”, quanto às gravíssimas conseqüências de se deixarem apanhar nas suas “identidades secretas”, histórias de crossdressers “que se deram mal” traduzem apenas o clima de total baixa-estima e auto-rejeição de pessoas transgêneras pela sua própria transgeneridade.
Tanto desprezo e aversão pela condição transgênera tem nome: – chama-se transfobia. Por mais paradoxal que pareça, existe transfobia – e muita – dentro do próprio grupo transgênero. De fato, a maioria das pessoas transgêneras sentem medo, vergonha, culpa e têm repúdio de serem transgêneras, assim como repudiam o contato com outras pessoas transgêneras.
Apontado como o segmento transgênero onde a transfobia é mais evidente, a maioria dos chamados “crossdressers” – “armarizados” e até mesmo “assumidos” – sente e demonstra uma incrível repulsa pela sua própria “compulsão para se travestir”. Ao contrário das travestis e transexuais, cuja sobrevivência no dia-a-dia depende da constante afirmação de “si mesmas” perante a sociedade, os crossdressers adotam uma postura totalmente dissimulada, de permanente negação, distância e ocultação do seu status transgênero. De uma maneira geral, são absolutamente relutantes em admitir prontamente a sua “compulsão para se travestir” exibindo, muitas vezes, um grau elevado de desprezo e desvalorização do próprio ato de se travestir. Fazem questão de reafirmar sua “masculinidade a toda prova”, conferindo às suas montagens um caráter de lazer, hobby e coisa totalmente passageira. Assim, ao mesmo tempo que relatam enorme conforto e prazer no ato de se travestir, vivem um intenso conflito para se livrar da culpa que sentem de ser “crossdressers”. Esse permanente conflito – de natureza notoriamente transfóbica – é o grande responsável pelos crossdressers não permanecerem travestidos em tempo integral (como as travestis e transexuais, de quem eles tanto se esforçam para se diferenciar…), assim como pelas gigantescas “urges” e “purges” que caracterizam a vida de um CD típico.
Uma forte manifestação da “transfobia” existente no meio transgênero, conveniente e cuidadosamente disfarçada de “prudência”, tornou-se, na verdade, uma das características mais representativas dos “crossdressers”. Trata-se do temor absurdo que a maioria dos crossdressers têm de serem vistos/ reconhecidos/ identificados/ descobertos/ denunciados ou terem sua “identidade secreta” revelada publicamente. Numa sociedade que ainda engatinha na área dos direitos humanos, é bastante razoável que uma pessoa tenha medo de ser excluída do convívio social, além de outras retaliações possíveis, em função da sua transgeneridade. A transfobia existente na sociedade em geral é sabidamente uma das mais graves e permanentes ameaças à segurança e ao bem-estar das pessoas transgêneras. As histórias de crossdressers mal-sucedidos mostram como pessoas “de bem” deixaram de ser respeitadas como cidadãs, amadas como pessoas e privadas de ganhar a vida decentemente, em função da “transfobia dos outros”. Entretanto, o que é mais nítido em tais histórias é a própria “transfobia” dos protagonistas, caracterizada por sua baixa auto-estima, sua ostensiva desqualificação da condição transgênera e até mesmo seu reconhecimento de que “os outros” estavam certos em repudiá-los, tripudia-los e condena-los pois, afinal de contas, eles estavam errados…
Ora, quando os próprios crossdressers se tornam os primeiros a condenar seu “crossdressing” significa que a auto-estima do grupo atingiu o fundo do poço e a transfobia o cume da montanha. Em vez de histórias de insucessos, decepções e desditas, de cunho altamente homofóbico e que apenas reforçam a dissimulação e a repressão de algo totalmente natural, vamos contar histórias de pessoas transgêneras que superaram o medo e o preconceito e se afirmaram como pessoas dignas de amor, respeito e admiração dentro da sociedade.
Em vez de histórias sombrias de pessoas que se escondem até de si próprias, envergonhadas e repudiando a sua própria natureza, vamos contar histórias de gente que deixou o armário e vive uma vida digna e respeitável como qualquer outro cidadão ou cidadã decente.
É impossível esconder indefinidamente uma parte tão essencial de si mesmo sem causar grandes transtornos, sofrimentos e danos, físicos e psíquicos, a si próprio. Qualquer pessoa transgênera vai se sentir infinitamente melhor, mais confortável e mais confiante quando revelar ao mundo o seu “grande segredo”.
Ser crossdresser não é crime. Temos o direito de revelar nossa condição transgênera a quem desejarmos, sem que isso jamais represente pontos a menos na nossa reputação ou provoque um tsunami na nossa vida pessoal e profissional. Mas, pela mesma razão de que não constitui delito, estamos igualmente dispensados de “ter que confessar” nossa condição diante de delegado, juiz, chefe ou colega babaca ou esposa preconceituosa e mal-informada.
A tentativa de manter “sigilo absoluto” na prática do crossdressing pode resultar em conseqüências totalmente opostas às desejadas. Pessoas transgêneras que ocultam a sua condição tornam-se ainda mais vulneráveis a uma súbita e precipitada revelação pública do seu status.
Em lugar do medo permanente e absurdo de ser “exposto” ou “descoberto” na condição de transgênero (transfobia de último grau) tod@s nós devíamos erguer a cabeça e falar de nós mesm@s como as pessoas muito especiais que somos.
O maior aliado que nós transgêner@s podemos ter contra a transfobia – a nossa própria e a dos outros – é sentir e demonstrar orgulho de ser o que somos. Permanecer no armário não ajuda ninguém; é uma forma totalmente inconveniente de “proteção”, que inúmeras vezes termina em “descobertas indesejadas” e até em suicídio.
A saída do armário é a mais notável prova de auto-amor e de auto-aceitação por nós mesm@s, que nos leva a superar a vergonha de ser “diferente” e descobrir razões para sentir orgulho de ser transgênero.

Sem Medo de Parecer Mulher

Ninguém pune uma mulher por ela se comportar como um homem. Pelo contrário, mulheres que desempenham papéis até ontem considerados exclusivamente masculinos são cada vez mais prestigiadas na sociedade.
Só o homem continua se envergonhando de parecer com a mulher, manifestação típica do macho da espécie que, por milênios considerou-se e foi respeitado como rei absoluto da natureza.
Até praticamente o início do século XX, ser mulher era sinônimo de ser escrava do homem, tendo que viver sob sua tutela, sem nenhum direito a ter uma vida própria. Depois das lutas da mulher pela emancipação – quase todas ganhas, e bem ganhas, até agora – é o homem que está sofrendo os efeitos da mão pesada da repressão social, que o mantém sitiado dentro das estreitas normas de conduta do gênero masculino onde, para ser reconhecido como homem não basta ter nascido macho, mas parecer homem, agir como homem, vestir-se como homem, pensar, sentir (sentir?) e até morrer como homem, 24h por dia, 365 dias por ano, de “mamando a caducando”.
Na cultura patriarcal-machista que tem imperado pelos últimos 10.000 anos, “ser e parecer homem” significa, essencialmente, “não ser e não parecer mulher”. O homem sempre se definiu a partir da negação e da repulsa, em si mesmo, de todo e qualquer traço de “mulheridade”, por assim dizer. Se a mulher tem ou faz isso, um homem terminantemente não pode ter nem fazer – nem isso, nem qualquer coisa semelhante. Ser homem é ser o oposto da mulher em todos os sentidos, por mais absurda que seja essa idéia. Apesar do disparatado da idéia, a rígida divisão dos gêneros masculino-feminino, com um sendo o oposto do outro, funcionou a contento enquanto os espaços sociopolíticoeconômicos foram mantidos bem delimitados, com os papéis de homem e de mulher claramente definidos. A coisa pega exatamente a partir do momento em que a mulher sente-se livre para exercer papéis antes exclusivos do homem, para vestir-se como homem quando bem lhe aprouver, para substituir o homem num sem número de atividades nas quais ele se julgava insubstituível. Nessa hora o homem ficou totalmente sem referências para definir-se, já que não há mais um perfil estável de mulher para ser negado.
A Revolução Feminista veio complicar tremendamente a vida desse personagem patético chamado “homem”, cuja “existência” até então se dava essencialmente em função da “inexistência” da mulher. Com os movimentos de liberação feminina, praticamente tudo o que a mulher não tinha ou não fazia ela passou a ter e a fazer, estabelecendo com o homem uma insuspeita (e totalmente inoportuna e indesejada) “igualdade de direitos”. Ao tornar-se “igual ao homem” a mulher fez muito mais do que tomar posse do que sempre lhe pertenceu de fato e de direito: – ela detonou a definição de homem como alguém que não tem e não faz nada do que uma mulher tem ou faz. Mandou para os ares o conceito de homem firmado a partir da negação e do repúdio a tudo que fosse considerado como “feminino” no comportamento do macho.
Um grande vazio institucional está criado: – se agora a mulher já pode tudo e já faz tudo o que um homem faz, em função de que sobreviverá daqui para frente o conceito de homem? A coisa é ainda mais grave se observarmos que a própria tecnologia, basicamente “inventada” pelo homem tornou-se fortíssima aliada da mulher, ao permitir a ela “dispensar” a participação do homem até mesmo na concepção dos filhos… São cada vez mais claras – e mais assustadoras – para o homem as conseqüências do fim das prerrogativas absolutas do gênero masculino.
A supremacia da mulher é uma realidade incontestável. Mesmo porque, a mulher “é” e sempre será a mãe, a geradora de tudo. Pai, como outros tantos papéis sociais do homem, não passam de meras ficções culturais.
A transgeneridade pode ser um passo adiante na redefinição do que será o homem na sociedade surgida após a revolução da mulher. Homens que imitam – e saboreiam – o comportamento feminino com a mesma naturalidade que as mulheres imitam o comportamento dos homens. Homens que se vestem de mulher, com muita graça, beleza e nenhuma vergonha do que estão fazendo. Homens desvinculados da brutalidade do gênero masculino, que descobrem a graça do gênero feminino e se orgulham de incorporar esses valores à sua própria personalidade. De homem.

Devo Contar À Minha Esposa?

“Devo contar à minha esposa sobre o meu crossdressing? Tem jeito de fazer isso sem magoá-la profundamente? Serei aceito? Serei rechaçado? Ela me expulsará da vida dela, maldizendo a hora que me conheceu? Fará escândalo? Contará para todos os nossos amigos que eu sou um homem que gosta de se vestir de mulher? Nossa relação terminará ali mesmo, no momento em que eu me confessar, sem nenhuma chance de continuidade? Diante dessas “inevitáveis catástrofes” não é melhor manter a coisa toda escondida, sem ela saber?”
Questões como essas atormentam a vida de praticamente todo CD que vive em relações matrimoniais ou tem namoradas firmes, de longa data, com as quais aspiram até mesmo casar-se. Por ser o crossdressing um dos maiores estigmas ainda existentes na nossa sociedade, fortemente repelido pelos valores tradicionais, todo crossdresser se sente, na sua intimidade, como um transgressor da “ordem natural das coisas”, por assim dizer. Nessa condição, o sentimento predominante é uma profunda “menos-valia”, uma visão de si mesmo como sendo uma pessoa inadequada para o convívio com “pessoas sadias e normais”. Medo, vergonha, incerteza e culpa são conhecidas companheiras de todo crossdresser.
É daí que vem o medo absurdo de se “confessar” às esposas e namoradas que, na cabeça de um crossdresser, pode ser equivalente a declarar-se culpado de um crime hediondo, gravíssimo, indigno de compreensão e perdão por parte de quem quer que seja.
Assim, quando muitos crossdressers dizem que jamais contariam às suas esposas porque elas reagiriam com repúdio, ódio e total inaceitação, na verdade estão apenas confessando a maneira como eles próprios reagem diante do seu crossdressing ou seja, com repúdio, ódio e total inaceitação. Nesse caso, a expectativa da reação que esperam por parte das suas esposas e namoradas apenas reflete a sua própria auto-estima rebaixada, o seu próprio senso de inadequação frente ao crossdressing.
O primeiro passo para eu conseguir revelar-me para minha esposa, sem temer as reações que ela possa ter, é ser capaz de me aceitar como crossdresser, sem temer as minhas próprias reações. Caso contrário, pode ser que eu simplesmente esteja transferindo para ela a minha própria dificuldade de me aceitar.
Se, na minha cabeça, o ato de me travestir é de alguma forma algo impróprio, feio, nocivo, imoral e pecaminoso, é inevitável que eu pense que é assim que os outros também irão pensar. Dificilmente eu vou imaginar que exista alguém capaz de compreender e aceitar em mim uma condição que eu mesmo repudio.
Comigo aconteceu exatamente assim: – eu repudiava tanto a idéia de ser crossdresser que imaginei que minha mulher ia me botar pra fora de casa quando eu lhe contasse. Por isso mesmo, antecipei-me à suposta reação dela e eu mesmo fui. Querendo pelo entender o que estava acontecendo comigo, pra eu ter saído de casa daquele jeito, ela foi atrás de mim. E aí, eu acabei contando tudo pra ela. O problema é que a reação dela foi completamente outra, ou seja, de muito acolhimento e fazendo um grande esforço para compreender e aceitar o que eu acabara de lhe revelar como sendo uma parte muito antiga e muito reprimida do meu ser. Dei sorte demais, porque, em virtude da minha baixa auto-estima em relação a ser crossdresser, eu podia ter jogado fora a melhor relação e a melhor pessoa que eu jamais conheci em toda a minha vida.
 Em virtude da traumática separação dos meus pais, meus antigos conflitos de gênero conseguiram romper o duríssimo cerco que eu lhes havia imposto e invadiram minha vida de modo definitivo e arrasador, depois de permanecerem décadas como um vulcão aparentemente extinto. De uma forma ou de outra, eu os revelaria para minha mulher, sempre, ao primeiro sinal de que o crossdressing estava tomando, de novo, a oposição de grande destaque que já tinha ocupado em meu corpo, em minha mente e em minhas emoções. Revelaria, sim, porque acredito que a confiança é a base de uma relação a dois. Quando não existe confiança, não existe intimidade. E sem intimidade, a coisa pode ser tudo, menos casamento, no sentido de uma relação sólida, viva e verdadeira entre duas pessoas.
“Contar” não quer dizer que a mulher TENHA QUE aceitar o crossdressing do marido embora, na minha opinião (e de todas as mulheres do meu círculo de amizades…), conviver com um homem feminino, fina e elegantemente vestido de mulher, é algo muito mais sensual, saudável, gostoso e sedutor do que aturar as exigências de um machão grosso, rude e ignorante.
Nunca me vi no direito de trair unilateralmente a relação com a minha mulher no que quer que fosse, ainda mais ocultando dela um lado tão essencial da minha personalidade (ou não é?). E além disso, a decisão de esconder da minha mulher o lado feminino da minha personalidade, implicaria em sufocar ainda mais a minha já tão judiada “mulher interior”, condenada a viver trancada dentro de mim, nas sombras, feito alma penada, desde que eu me entendo por gente.
Imagino toda a energia vital desperdiçada para se encontrar subterfúgios, esquemas, explicações, meias-verdades e desculpas, a fim de manter o meu crossdressing oculto da minha mulher! É muita perda de tempo, muita estratégia inútil, muita adrenalina – e nenhuma satisfação, a menos que a pessoa tenha uma particular atração por filmes de suspense… Na verdade, existe mesmo crossdressers cujo prazer maior vem exatamente de sentir que estão fazendo algo proibido e às escondidas; algo que, se revelado ao mundo, perderia toda a graça e o sabor de “aventura”. Sinceramente, não acho graça nenhuma em ser a “parte perseguida” numa eterna seqüência de perseguição. Ainda mais se eu tivesse que pensar o tempo todo que a “parte perseguidora” era minha mulher!
A ocultação para a esposa tem conseqüências piores. É uma frustração muito grande eu não poder me movimentar de forma mais natural dentro da minha própria casa. O impedimento ostensivo de expressar minha feminilidade acaba gerando mágoas e ressentimentos profundos que vão se manifestar na vida do casal sob a forma de brigas, cobranças e disputas, cada vez mais tolas e sem sentido. O sofrimento psíquico é assim inconscientemente imposto à companheira sem ela nem ao menos saber que a fonte de tanto stress doméstico é crossdressing do marido. É assim que muitos crossdressers acabam precipitando a separação que tanto temiam acontecer caso eles se revelassem às suas companheiras.
As estatísticas mostram que, embora a rejeição seja possível, na maioria das vezes os crossdressers que se revelam para suas cônjuges são surpreendidos por um elevado grau de compreensão e aceitação, muito além do que esperariam receber em suas melhores expectativas.Mesmo que muitas não se sintam à vontade, pelo menos de início, de participar do crossdressing de seus maridos, são raras as mulheres que reagem de maneira francamente hostil, injurioso e aversivo. Reações desse tipo são justamente mais comuns quando os maridos passam anos e anos se travestindo – e fazendo programas – sem que elas saibam, ou quando ficam sabendo através de terceiros ou por ocorrências fortuitas, como a descoberta de uma insuspeitada mala com roupas de mulher no porta-malas do carro do marido.
Também é verdade que algumas vezes a revelação pode resultar em divórcio. Mas o que se tem observado é que, de qualquer modo, esses casamentos já não andavam muito bem das pernas em inúmeros outros aspectos. Em outras palavras, o crossdressing jamais poderá ser apontado, sozinho, como motivo absoluto de separação do casal. Ninguém como a mulher de um crossdresser se enquadra melhor na definição de Emerson, quando ele dizia que “esposa é alguém com quem eu posso ser sincero”. Crossdressing é basicamente uma atividade solitária e que gera muita solidão. Se a esposa do crossdresser não puder ser sua amiga, tampouco estará qualificada para ser sua esposa. Nesse caso, a separação é melhor do que uma convivência insincera e forçada.
Mas é também graças à extraordinária compreensão e aceitação das esposas, as chamadas S/Os, ao seu “amor incondicional” pelos cônjuges, que muitos crossdressers conseguem não apenas obter uma melhoria substancial nos seus próprios níveis de auto-estima e auto-aceitação, mas, principalmente, sobreviver às piores crises existenciais. Meu caso.
O que é que vou dizer pra ela
Uma coisa fundamental, antes de compartilhar com nossas companheiras o grande segredo das nossas vidas, é saber exatamente que segredo é esse: – de que se trata, como se manifesta, que fins objetiva alcançar.
Muita gente, nessa era de comunicação rápida e fácil de Internet, de repente resolve “se achar” crossdresser porque “achou bonito” ser. Infelizmente, a longo prazo, há pouca “boniteza” e muita coisa confusa e complexa no crossdressing para alguém se auto-intitular crossdresser de modo tão leviano, na base do impulso, do deslumbramento e do oba-oba.
Um passo fundamental, portanto, antes de se abrir com a companheira é saber realmente quem você é nessa história de crossdressing e onde se situa. De repente, tudo que o sujeito faz é vestir uma calcinha de vez em quando e participar de um chat na Internet, altas horas da noite. Isso é ser crossdresser? Vale a pena uma angustiante revelação à esposa de uma coisa dessas? Ora convenhamos que é algo muito pequeno para merecer qualquer tipo de estardalhaço.
A maneira como a mulher vai reagir à revelação do marido ou namorado resulta, em grande parte, de como este lhe informa a respeito do que é ser crossdresser. Alguns maridos, buscando amenizar o estigma existente sobre homens que se vestem de mulher, dizem que travestir-se, para eles, é apenas um passatempo, uma forma de se livrarem do stress, de fazer algo “fora da rotina” de vez em quando. Embora seja uma fórmula simples e pouco comprometedora do CD se revelar à esposa, reduzir ou desqualificar a importância do crossdressing em sua vida pode acabar se revelando um péssimo expediente, a médio e longo prazo. Se o indivíduo é realmente um crossdresser, a mentira vai começar a aparecer logo na primeira crise de “urge” (montar ou morrer) ou quando sua mulher interior começar a botar as manguinhas de fora, nas horas mais “impróprias” e “inconvenientes”, como quando estiver na cama com a esposa e der vontade de transar ocupando o papel feminino da relação…
Outros crossdressers resolvem revelar-se somente na hora em que suas mulheres descobrem roupas femininas nos seus armários e, naturalmente, lhes pedem explicações. Aí o cara vai ter que lhe convencer que não se trata de outra; que “a outra”, no caso, é ele mesmo. E já que não existe “outra”, em cima de quem você acha que essa esposa vai descarregar sua raiva? Ou quando chega aos seus ouvidos, através de uma fofoca, ou aos seus olhos, numa foto insuspeita, a notícia pouco alvissareira das “reinações” do marido no mundo trans… Aí, então, é que a coisa pega mesmo e dessa vez não vai ser nem necessário perguntar quem é a outra: – a esposa já viu na foto quem é.
Devemos ter claro como crossdressers que nós somos muito mais do que as nossas roupas. Se alguém acha que seu crossdressing está somente nas suas roupas, ficará melhor classificado como fetichista, não como crossdresser. O principal aspecto da conduta crossdresser é que, a despeito de termos nascido homens, sabe-la lá porque cargas d’água, nos identificamos profundamente com valores, comportamentos e atitudes convencionados pela sociedade como próprios da mulher. Entretanto, para um verdadeiro crossdresser, a roupa, a maquiagem, a produção esmerada, é apenas um meio de auto-expressão – não um objetivo final.
Poder experimentar interiormente o outro sexo e buscas maneiras de expressa-lo externamente faz de nós criaturas muito especiais, completamente fora dos padrões convencionais. Como diz a minha amiga transgênera Diana Maria, uma esposa ou namorada que não compreender isso não merece desfrutar da companhia de um crossdresser. pois o que ela acha ser maldição, transgressão, ou desgraça é, na verdade, uma grande bênção dos céus!!!
Um crossdresser deveria apresentar sua mulher interior para a esposa como um bem precioso, uma dádiva do céu, um presente muito especial que Deus lhe concedeu.
Entretanto, por causa do estigma social de homem vestir-se de mulher, a maior parte dos crossdressers tendem a apresentar o seu lado feminino para a esposa sob a influência de um tremendo sentimento de vergonha e culpa, com a sua auto-estima “lá em baixo” e esperando que ela reaja de modo totalmente hostil. A pergunta aqui muito simples, e já foi formulada anteriormente é “como minha esposa poderá me aceitar se eu próprio imagino estar fazendo uma coisa má, feia, errada e pecaminosa sob todos os aspectos e pontos de vista?”
O mais importante de tudo, ao nos revelar para nossas esposas, é nos colocarmos NO LUGAR DELAS, abordando com ternura e coragem aqueles que são sempre os seus maiores temores. O mais comum de todos é de que a gente seja gay (e muitos de nós realmente somos, ora essa!) ou transexuais (e muitos de nós acabam sendo, não há como negar!). Esses assuntos devem ser abordados com nossas esposas o mais cedo possível, com toda clareza e sinceridade, sem rodeios ou subterfúgios de nenhuma espécie. Da mesma forma, as preocupações que elas apresentam quanto aos filhos, emprego, saúde e objetivos de vida devem ser colocadas na mesa e discutidas em todos os seus detalhes.
Toda mulher fica com muito medo das represálias sociais que podem recair sobre ela e os filhos pelo fato do seu marido ser um crossdresser. A grande maioria das esposas de crossdressers não escolheram estar nessa situação e vão precisar de um tempo para se adaptar a ela, de que modo for. Nesse período, será indispensável que tenham o apoio e a compreensão do seu marido crossdresser. Muitas poderão precisar até mesmo de ajuda profissional especializada para encontrarem novamente o seu “fio da meada”. O mais importante de tudo É NÃO FAZER DRAMA, já que o cenário preenche todos os requisitos para enredos trágicos. É preciso que a gente compreenda a nossa condição de crossdresser COMO UMA CONDIÇÃO QUALQUER, DAS INÚMERAS CONDIÇÕES QUE UM CASAL TEM QUE ENFRENTAR NO CURSO DA SUA VIDA EM COMUM, E NÃO COMO UM “DEUS NOS ACUDA”, QUE VAI DEMOLIR TODA A POSSIBILIDADE DE VIDA MATRIMONIAL. Se alguém tiver dúvida disso, basta substituir acima a palavra “crossdresser” pela palavra “alcoólatra”, “desempregado”, “doente mental”, “paciente terminal”, etc, que o texto fará sentido da mesma forma, às vezes com muito mais sofrimento e repercussões sociais bem mais desagradáveis do que no nosso caso.
Que tipo de marido eu posso ser, sendo crossdresser?
Em todos os fóruns CDs de que participo, sempre aparece alguém afirmando que a mulher do crossdresser tem o direito de exigir o homem com quem casou. Isso significaria que, revelando-se crossdresser, o marido deixa de preencher algum requisito indispensável para permanecer casado, restando-lhe, portanto, apenas separar-se e ir viver sozinho, se virando como puder. Trata-se, evidentemente, de duas grandes tolices.
Primeiro, que ninguém permanece a vida inteira sendo a mesma pessoa, nem do ponto de vista físico, que é o mais evidente, nem do ponto de vista mental e emocional. As pessoas mudam – e mudam muito – mesmo quando não estão dispostas a reconhecer isso prontamente. E todo mundo sabe que isso é uma verdade irrefutável. Assim, nenhuma mulher tem o direito de exigir que o marido permaneça sendo exatamente igual à pessoa com quem ela se casou, mesmo porque, a essa altura, ela também não é mais a mulher com quem ele se casou.
A segunda tolice é que, ao contrário do que acreditam algumas pessoas preconceituosas e mal informadas, os crossdressers constituem uma classe de maridos (e pais) que as mulheres reconhecem ser bem melhores do que a média de maridos machões existente no mercado. Do ponto de vista da sexualidade, as mulheres que continuam junto com seus maridos crossdressers são praticamente unânimes em afirmar que, depois da revelação, eles se tornaram melhores na cama, amantes altamente refinados, mais pacientes, sensuais, atentos e capazes de satisfazer os desejos mais secretos de uma mulher.
Falando claramente, as mulheres, pelo menos as mulheres independentes e amadurecidas que constituem hoje em dia uma expressiva parcela da população, têm expressado em todas as pesquisas uma preferência absoluta por HOMENS MAIS FEMININOS. Homens delicados, sensíveis e empáticos, sem os rasgos de arrogância e superioridade do HOMEM TRADICIONAL. Essas mulheres apreciam homens que se cuidam – e que sabem cuidar. Apreciam o humor e o gozo estético. Sobretudo, essas mulheres apreciam fazer SEXO DE QUALIDADE em companhia de PESSOAS DE QUALIDADE, sejam homens ou mulheres.
Diante dessa nítida e visível “tendência de mercado”, nós, CROSSDRESSERS, estamos com a faca e o queijo na mão, se quisermos ficar com nossas mulheres. Não há porque NOS VENDERMOS A ELAS COMO PRODUTO REFUGADO DO MACHISMO DECADENTE QUE INFESTA ESSE MUNDO. AO CONTRÁRIO, SOMOS O QUE O MACHISMO PRODUZIU DE MELHOR, POIS FOMOS FEITOS DA COSTELA DE EVA…
Em todos esses fóruns, também há sempre uma pessoa colocando em dúvida a real aceitação de uma esposa do travestismo do marido: – OK, ela pode até estar aceitando agora, mas em nome de que ela o faz, quanto disso ela é capaz de tolerar e até quando vai suportar essa história? Mais uma vez, o que essas pessoas preconceituosas não vêm é que questões como essa são pertinentes a qualquer aspecto ou evento de uma relação matrimonial, não sendo de maneira nenhuma “exclusivas” de casamentos onde o marido é crossdresser. Situações como a transferência do marido para uma outra cidade, por força do seu contrato de trabalho, ou até a descoberta de um “caso” extra-conjugal, encaixam-se perfeitamente no mesmo tipo de dúvidas acima. Contudo, as mentes preconceituosas e “mal-informadas” (melhor seria dizer “mal-intencionadas”…) continuam vendo o crossdressing como se fosse O TRAVESTISMO FOSSE RESPONSÁVEL PELOS MILHARES DE CASAIS QUE SE SEPARAM TODOS OS DIAS NESSE MUNDO… E o pior é que tem gente demais acreditando em mais uma bobagem dessas, das muitas que são ditas quando o assunto são os crossdressers casados.
Nada desagrada mais uma mulher do que um homem que permanece homem em todos os sentidos, exceto na roupa, no sapato de salto, na meia de seda e na peruca que está usando. O tipo de crossdresser que mais dificilmente será aceito pela esposa é justamente aquele que tenta manter todos os velhos padrões de machismo na sua vida conjugal. Nesse caso, a contradição fica forte demais para ser engolida pela esposa. Uma esposa de crossdresser declarou que um dos principais motivos dela odiar o crossdressing do marido era que, antes, ele se assentava diante do aparelho de TV e ficava tomando cerveja e assistindo futebol e agora se assenta diante do espelho e fica se maquiando ou desfilando pela casa, exibindo seus novos vestidos. Ou seja, ela não ganhou uma nova companheira, mas simplesmente continua a ter o velho companheiro arrogante e displicente de sempre.
Em vez de tentar convencer ou impor nosso modo de vida às nossas esposas, é mais interessante tentar participar com elas das atividades ditas tipicamente femininas. O mundo tipicamente feminino inclui cozinhar, costurar, decorar a casa, limpar, cuidar, conversar longamente com as amigas sobre intimidades e trivialidades. Um investimento nesse aprendizado permitirá ao crossdresser “estreitar suas relações” com o mundo da mulher, levando o seu travestismo a adquirir novos horizontes, muito além do simples ato de vestir-se como uma mulher e imitar seu gestual.
Atitude Feminina é algo muito mais amplo e mais importante do que a simples aquisição e aperfeiçoamento do modo de vestir e do gestual feminino. Atitude Feminina implica, além daqueles itens tão prosaicos enumerados no parágrafo anterior, no desenvolvimento de um senso estético mais apurado, no cultivo de uma inclinação para a arte, envolvendo a música, a dança, a literatura. Nossas esposas serão muito mais cooperativas se perceberem que ganharam uma amiga para as compras da casa, para o cuidado com os filhos, para a escolha da roupa que vão usar. Se isso acontecer, é provável que elas lamentem muito pouco a perda daquele antigo machão, que não agüentava esperar por elas do lado de fora da loja de calçados femininos. Agora, ele entra, opina e, se elas deixarem, acabam levando mais um par de scarpins para a sua coleção…
Relacionamento Sexual com a Esposa
Devemos lembrar que um dos maiores medos das nossas esposas é o de perder o companheiro de cama depois que ele revela ser crossdresser. Todas elas ficam profundamente assustadas com a idéia de que o marido pode acabar se decidindo por fazer uma cirurgia e mudar de sexo. Embora isso quase nunca aconteça com a maioria absoluta dos crossdressers casados, mesmo assim muitas esposas não gostam de se sentir como lésbicas – que não são – e se queixam de não estarem sendo bem atendidas nos encontros amorosos com seus maridos. De repente, eles passaram a cobrar delas que fiquem permanentemente por cima durante a relação ou se recusam, de modo sutil ou direto, em fazer-lhes aquelas longas e deliciosas preliminares que para uma mulher tem mais valor até do que a própria penetração.
Que pena perder terreno até mesmo num território em que, para todos os efeitos, deveríamos saber nos movimentar com o máximo de desenvoltura pois, sentir-se mulher implica, acima de tudo, em penetrar fundo nos segredos da sexualidade feminina! Uma sexualidade lindamente difusa, espalhada por todo o território do corpo, e completamente diversa daquela sexualidade pontual, exclusivamente genital, a que os homens estão acostumados.
Afirmo que boa parte, senão a maior parte, do treinamento crossdresser, consiste justamente em aprender a gozar como uma mulher. Se o cara aprende isso – que eu considero como um dos aprendizados mais difíceis e demorados de se obter, tanto para o homem quanto para as próprias mulheres genéticas – então o seu relacionamento sexual com a esposa fluirá como um rio de corrente caudalosa em direção a um oceano de prazer como o casal nunca experimentou antes!!! Porque não serão duas mulheres na cama, esperando que uma faça à outra o que a outra espera que a uma lhe faça. Será um homem fazendo com uma mulher o que apenas homens femininos (crossdressers, com certeza!) são capazes de fazer. E, ao fazer com ela, o CD claramente lhe ensina o que espera que ela lhe faça, tendo em vista a sua condição assumida de mulher não-genética. E antes que algum obstinado “cultor do pênis” venha correndo dizer alguma besteira, é preciso dizer que, numa relação assim, pinto é a última coisa que importa!!!
Afinal, Conto ou não conto?
Se você me acompanhou até aqui, viu que a minha posição clara e objetiva é “contar, sim, sempre!”, e o mais rápido possível, se você ainda não fez até agora e já está praticando crossdressing há mais tempo. Esconder da mulher ou praticar escondido é um jogo de alto risco, que estatisticamente tem muito probabilidade de por por terra a relação matrimonial do que uma revelação sincera e honesta do marido. Lembre-se que, sentir-se traída na confiança que depositou no marido um sentimento muito pior e muito mais difícil de se lidar do que sentir-se com medo de uma situação nova e desconhecida que apareceu na vida do casal. Agora, para que haja um desfecho no mínimo saudável, onde a gente tenha as melhores chances de sair inteiros, crescidos e melhorados, é necessário que a gente se prepare, nos aprofundando cada vez mais no entendimento e aceitação, em nós, desse fenômeno estranho, mas muito lindo e abençoado, que nos leva a querer nos expressar como mulher.
Comunicação é um permanente exercício de empatia com o outro. É por isso que as mulheres entendem as mulheres muito melhor do que entendem os homens ou são entendidas por eles. Se a gente realmente se considera TÃO MULHER como acha que é, então será até fácil a gente conversar com a nossa. Nada pode ser mais eficaz, ao revelarmos para elas o nosso crossdressing, do que FALAR COM ELAS DE MULHER PARA MULHER, COMO SE FÔSSEMOS VERDADEIRAMENTE MULHERES – E NÃO DE HOMEM PARA MULHER OU DE HOMEM PRA HOMEM (o que pode ser ainda mais desastroso).
Para isso, basta empregarmos a linguagem que elas mais entendem, que é a linguagem do sentimento, da sensibilidade, da emoção, da ternura, do amor. Se nos comunicarmos com o CORAÇÃO – e não com a cabeça, como manda o figurino do macho – TEREMOS INFINITAMENTE MAIS CHANCES DE QUE ELAS NOS COMPREENDAM, AINDA QUE NÃO NOS ACEITEM (embora, acredito eu, seja muito difícil elas não nos aceitarem, nem que seja um pouquinho, se agirmos dessa forma).
Picasso, duas mulheres correndo na praia
Sendo honestos, verdadeiros e amorosos, sem apelarmos para o papel de vítima ou nos envaidecermos com fantasias impossíveis de que agora somos mulher e pronto, podemos ter a certeza de caminhar para desfechos muito menos dolorosos e mesquinhos no nosso relacionamento conjugal. Melhor é impossível pois, se continuarmos na relação, será com incríveis ganhos adicionais para ambos os cônjuges e, se sairmos dela, não será cheios de culpa, feito criminosos, de cabeça baixa e coração ferido, profundamente “mexidos” e frustrados. Será de cabeça erguida, como verdadeiros vencedores, que souberam respeitar suas próprias escolhas e as escolhas das suas esposas.

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